Advocacia Startup

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E quando chegarem as startups de advocacia de base tecnológica?

Não, não estou a falar do LegalTech a produzir software para escritórios, nem apenas na diferenciação de uma Alternative Business Structure nem da incorporação de talentos diversos nos departamentos de apoio.

 

Estou a falar da nova Advocacia.

 

Um projecto de advocacia que é montado por advogados, engenheiros, gestores, cientistas e técnicos com outras competências, criados de raiz como uma qualquer outra startup, recorrendo a equipas internas e a recursos nearshore e offshore que trabalham remotamente à peça.

Um projecto já com metodologias ágeis nativamente implementadas, sempre que possível com investigação tecnológica contínua e em que todos os departamentos e áreas assentam em tecnologia e em modelos de organização absolutamente disruptivos para os padrões actuais.

Todos os departamentos serão criados depois de uma base de software que assegure a escalabilidade sem necessidade de aumentar a alocação temporária de recursos humanos. Muitas das funções não jurídicas não serão consideradas equipas de apoio mas sim serão partes integrantes dos departamentos e vários até serão sócios.


Um contrato que não sai para o cliente sem passar pelo Legal Designer nem ser aprovado pelo Responsável de Experiência do Cliente (uma espécie de UX Designer). Um Caderno de Encargos co-elaborado por um especialista na área respectiva e o Advogado de Contratação Pública. Arquitectos e Advogados, ambos sócios numa firma especializada em imobiliário, construção e urbanismo.

Departamentos penais e contenciosos com cientistas de dados e investigadores forenses envolvidos em todos os momentos dos processos, indicando ao Advogado a melhor estratégia, devendo este iniciar depois o seu aprimoramento jurídico. Psicológos clínicos a co-liderarem o departamento de Família e Sucessões com os advogados especialistas.

Mais importante que os exemplos, é a mentalidade.

Foco no Cliente. Os advogados startup irão estruturar a sua actividade em volta do cliente, este não virá pedir ajuda e nem está à espera pedir, os problemas terão de ser antecipados através de imersão no cliente, com vista à criação de uma sensação de segurança jurídica permanente usando tecnologia de dados e inteligência artificial. A necessidade de constante inovação para manter e melhorar os níveis de produtividade irá obrigar as startup a terem o equivalente a um Product Manager por departamento.

Cliente não irá mais aceitar pagar os longas etapas da prática jurídica que resultem das limitações humanas, ou, pelo menos, sem uma explicação credível

“Impossível!  Demora muito, é preciso fazer isto e aquilo!” dirão alguns. Talvez agora o seja mas amanhã não tem de ser assim.

Nenhuma startup irá começar a operar sem automatização de documentos, sem respostas imediatas às suas dúvidas jurídicas e quererá recorrer a Inteligência Artificial para montar toda a estratégia do processo analisando em segundos toda a jurisprudência e doutrina existente. O advogado só terá de verificar erros e confirmar. Caso hajam erros na estratégia, as equipas de desenvolvimento da IA serão envolvidas e tomarão decisões em conjunto com o advogado.

A startup irá recorrer aos funis do Marketing, com o intuito de segmentar o cliente, para quando chegar ao fim do processo, o sistema dizer qual é o melhor advogado para aquela situação e transmitirá ao advogado quais os pontos mais relevantes da situação reportada pelo cliente. A colaboração e a partilha na startup será total e omnidireccional. A confiança cliente-advogado continuará a ser importante mas apenas crucial em situações mais graves.

Esta simplificação de tudo irá acelerar a práctica jurídica deixando os escritórios tradicionais para trás. Se uma UBER apareceu no conservador sector dos táxis e uma Revolut apareceu na poderosa Banca, porque é que o mesmo não pode acontecer na Advocacia? Vai e já está a ocorrer. Em Portugal estão em stand-by, evitando ser alvo dos processos da Ordem dos Advogados. Aguardando a liberalização ou um investidor que permita enfrentar a Ordem.

Os preços cairão bastante mas as startup despacharão quase em tempo real um manancial enorme de processos. Os números do negócio não cairão, vão beneficiar da escala e do maior acesso aos seus serviços, o valor financeiro obtido por processo é menor, já que a optimização irá promover redução do tempo dispendido em cada um mas podem ter mais clientes pelo mesmo esforço. Basta ver os estratosféricos números de alguns softwares para perceber que, numa muito pequena escala empresarial, já ultrapassaram a esmagadora maioria dos escritórios tradicionais…e ainda nem são concorrentes! Imaginem quando os advogados entrarem em pleno nesta revolução.

 Os tribunais? Os civis, pelo menos, serão à distância com processos divididos por salas virtuais com juízes a saltarem entre salas muito rapidamente, com acesso a todo o processo digitalizado e estruturado em apoios à decisão como analytics e outras ferramentas.

Os julgamentos criminais também terão uma forte digitalização embora mais lenta. O Advogado não vai precisar de sair do escritório horas mais cedo para ir ao tribunal, não precisa de perder o dia inteiro com uma única situação.

Se o leitor trabalhar num grande escritório provavelmente o maior impacto não será tecnológico mas sim de agilidade e mentalidade. Sócios com maior idade tenderão, naturalmente, a tentar boicotar a mudança mas pode sempre sair e juntar-se a ela.

Se o escritório for pequeno ou estiver em prática individual quem sabe não se funde com uma tecnológica e seja você a startup de que fala o texto. Um aspecto já sondei, muitos jovens advogados não estão apreensivos, antes pelo contrário, encontram-se extremamente motivados para esta Revolução.

É tempo de evoluir.

Opinião pessoal de Gonçalo Piriquito, CEO da IUSIFY e Managing Partner da Legal Walkers

As opiniões vinculam exclusivamente o seu autor e a título pessoal. A APLT e os seus membros não tem necessariamente de concordar com as opiniões aqui divulgadas

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